Pai, na cultura e na tradição cristã, é também uma representação de Deus Pai. Os pais terrenos podem ser compreendidos como uma imagem humana, perfeita e possível dessa paternidade espiritual que encontramos em Cristo: uma referência de cuidado, direção, presença, autoridade e amor.
Quando Jesus escolheu seus discípulos, não escolheu homens desprovidos de limitações. Eram seres humanos com potencialidades, fragilidades, dúvidas, erros, fracassos, medos e contradições. Tinham luz e tinham sombras. E talvez seja justamente nas sombras que a luz consiga se revelar com maior nitidez. Luz excessiva também pode ofuscar os olhos, e até mesmo a claridade exige de nós capacidade para suportar e processar aquilo que enxergamos.
Assim também somos nós em nossas relações. A alma nos recorda que temos limites, e esses limites tornam-se evidentes quando esbarramos nas colisões da desarmonia: conosco mesmos, com aqueles que estão próximos e até com aqueles que, embora distantes, fazem parte da nossa história.
A relação entre pais e filhos pode encontrar maior harmonia quando aprendemos a abandonar algumas queixas e expectativas construídas sobre o que o outro deveria ser. O “deveria” nem sempre corresponde ao que é possível na realidade. Talvez seja mais sábio trabalhar com o que existe, respeitando o limite humano de cada pessoa e reconhecendo aquilo que, naquele momento, está além de suas possibilidades.
Muitas vezes, sofremos mais na mente do que propriamente nas relações. Sofremos com a imagem idealizada que construímos do pai, da mãe, do filho, da filha e de nós mesmos. Sofremos mais com o ideal romantizado do que com a realidade factual, porque esperamos que as pessoas correspondam a expectativas que nem sempre foram possíveis, nem para elas nem para nós.
Desgastamo-nos nas colisões entre metas, expectativas, motivos e propósitos que, muitas vezes, sequer estão harmonizados dentro de nós. Somos nós mesmos que, em determinadas circunstâncias, nos tornamos pessoas indesejáveis à própria existência quando elevamos excessivamente as cobranças e transformamos presença, cuidado e vínculos em dívidas afetivas.
A presença de alguém em nossa vida não precisa ser contabilizada como uma dívida quando aprendemos a enxergá-la pelos olhos da gratidão. E somos ainda mais cruéis quando nos chicoteamos por meio da autoflagelação, afastando-nos de um eixo interior sustentado pela consciência, pela humildade e pela compreensão de que somos seres em permanente construção.
Talvez seja necessário curar não apenas a relação com nossos pais, mas também a relação com a própria existência: com aquilo que foi, com aquilo que tem sido e, principalmente, com aquilo que já não pode ser modificado.
Somos seres sistêmicos em muitos aspectos de nossa existência. Carregamos histórias, memórias, vínculos, referências e marcas daqueles que vieram antes de nós. Por isso, talvez seja mais fecundo olhar para o melhor que existe em nós e também para o melhor que conseguimos reconhecer em nossos pais.
E, por meio deles, talvez possamos acessar uma dimensão maior de Deus — inclusive a imagem culturalmente construída de Deus Pai — sem que isso signifique negar mudanças necessárias, questionamentos legítimos ou a necessidade de romper com aquilo que nos faz mal. Trata-se de compreender que nem todo conflito precisa transformar-se em antagonismo e que nem todo desacordo precisa resultar em ruptura.
Nossos pais são parte de nossa origem. Somos seus descendentes, e reconhecer essa origem não significa aceitar opressão, violência ou submissão. A autoridade parental não precisa nos hostilizar, oprimir ou subjugar. Podemos crescer juntos por meio de uma relação dialógica, sustentada pelo respeito, pelo afeto e pela admiração possível entre seres humanos que também aprendem uns com os outros.
“Procure e encontrará.” Busque, a cada dia, aquilo que pode ser compreendido, ressignificado e curado. Aproveite cada oportunidade de olhar para dentro de si e rever os próprios moldes de pensamento. Cultive a mansidão, a humildade e a disposição para compreender antes de julgar.
Assim, a relação pode tornar-se mais divina por sua própria natureza: quando há mais amor do que colisões, mais compreensão do que cobrança, mais gratidão do que dívida e mais humanidade dentro das relações.
E fica uma pergunta para todos nós:
Se temos dificuldade de nos relacionar com aqueles que nos deram a vida, como construiremos relações verdadeiramente humanas com aqueles que não nos deram a vida?
Talvez o caminho não seja perguntar incessantemente: “Por que meu pai não foi assim?” ou “Por que minha mãe não fez isso?”. Talvez seja perguntar: “O que posso fazer, a partir de quem sou hoje, para tornar essa relação mais humana, possível e consciente?”
O “sim, senhor” pode ser uma direção de respeito, e não necessariamente uma submissão. O respeito pode coexistir com autonomia. A autoridade pode coexistir com diálogo. A diferença pode coexistir com amor.
Precisamos de mais humanidade dentro das relações e, principalmente, dentro de casa, para que essa humanidade possa alcançar o mundo.
Ao meu pai, Manoel Francisco Santos, deixo o meu Feliz Dia dos Pais, hoje e sempre.
E, neste dia, desejo também que todos os filhos e filhas encontrem, dentro de suas próprias possibilidades, um caminho para viver melhor a relação com seus pais — seja ela marcada pela presença, pela distância, pelas imperfeições, pelas reconciliações ou pelas memórias.
Aos pais que já partiram para o plano espiritual, talvez também possamos dedicar um gesto de amor: curar, em nós, aquilo que ainda dói na memória afetiva. Talvez essa cura seja mais necessária para nós do que para eles. Quando o véu que hoje encobre nossa compreensão já não existir, talvez muitas das amarras que julgamos precisar de perdão tenham perdido sua força.
Creio que muitos dos nós que nos aprisionam são nós que fazemos em nós mesmos. E talvez a verdadeira libertação esteja justamente em desatá-los.
Sejamos mais filhos e filhas do que aquilo que desejamos que nossos pais fossem. Sejamos capazes de reconhecê-los também em sua humanidade.
Em vida ou em memória.
Na presença ou na ausência.
Naquilo que foi possível e também naquilo que não foi.
Que possamos aprender a ser filhos sem exigir que nossos pais sejam perfeitos.
Que possamos honrar sem idealizar.
Perdoar sem apagar.
Compreender sem justificar o injustificável.
E amar sem transformar o amor em cobrança.
Porque, no fim, talvez a maior homenagem que possamos oferecer aos nossos pais seja também uma homenagem à nossa própria existência: aprender a viver com mais amor do que colisão, mais gratidão do que cobrança e mais humanidade do que julgamento.
Por mim!
Por nós!
Aracaju, 9 de agosto de 2026.
Ângela Santos de Oliveira
Comentários