A humildade é irmã gêmea da verdade, porque uma não nasce sem a outra. Uma pessoa, uma nação e o próprio planeta precisam dessas duas irmãs gêmeas para que a vida encontre equilíbrio, consciência e sentido.
Quem reflete sobre as palavras compreende que até aquilo que possui pode lhe ser tirado. Eu diria, porém, que quem não vive na humildade dificilmente consegue viver a verdade em sua plenitude. Afinal, reconhecer a realidade exige coragem para enxergar a si mesmo sem os disfarces do orgulho, sem as máscaras da vaidade e sem a necessidade de parecer aquilo que não se é.
O negacionismo, em suas diferentes manifestações, pode representar justamente essa tentativa de se colocar acima da realidade, reivindicando para si uma condição que não encontra sustentação nos fatos, nem legitimidade nos direitos que se pretende exercer. É distanciar-se daquilo que verdadeiramente nos representa para promover uma imagem mais conveniente aos próprios interesses.
Mas vale uma reflexão: quando você se encontra diante de uma realidade que procura esconder e, ao ser percebido por aquilo que realmente é, sente-se pequeno, inferior ou diminuído, o que está, de fato, ferido dentro de você?
Será a sua dignidade ou a imagem que construiu para ser aceito, admirado e reconhecido pelos outros?
Se você só se sente bem quando ocupa um patamar em que pode exibir uma realidade camuflada, será que está experimentando uma verdadeira autovalorização ou apenas tentando sustentar uma aparência que lhe oferece segurança?
E se, em um dia comum, você precisasse chegar a algum lugar exatamente como está, sem os símbolos, os títulos, os bens ou os sinais exteriores que a sociedade costuma utilizar para classificar as pessoas, sentiria que sua dignidade foi diminuída? Ficaria constrangido por não estar à altura das regras e dos padrões de aceitação social? Quanto desse desconforto nasce de quem você realmente é e quanto nasce do medo de não corresponder às expectativas alheias?
São perguntas que não exigem respostas imediatas, mas pedem honestidade diante do espelho da própria consciência.
O grande crescimento pessoal consiste em não se tornar refém das coisas que nos acompanham na caminhada terrena. Os bens podem ser perdidos, os cargos podem deixar de existir, os títulos podem perder sua função e os aplausos podem silenciar. Nada disso, por si só, determina a grandeza ou a pequenez de um ser humano.
A verdadeira grandeza está na capacidade de reconhecer os próprios limites sem se diminuir, de reconhecer as próprias qualidades sem se exaltar e de olhar para o outro sem precisar estabelecer uma hierarquia de valor entre as pessoas.
Ser humilde não significa negar as próprias conquistas, esconder os talentos ou aceitar a injustiça. Significa compreender que aquilo que somos não nos concede o direito de nos colocarmos acima de ninguém. É ter consciência do próprio valor sem precisar fabricar uma superioridade.
A verdade, por sua vez, não exige que sejamos perfeitos. Exige que tenhamos disposição para reconhecer nossos erros, rever nossas convicções e corrigir nossos caminhos quando a realidade nos mostrar que precisamos mudar.
Talvez seja por isso que humildade e verdade caminhem tão próximas: uma nos dá coragem para reconhecer quem somos; a outra nos impede de viver prisioneiros daquilo que fingimos ser.
E quando essas duas irmãs gêmeas encontram morada na consciência humana, deixam de ser apenas virtudes individuais e passam a ser fundamentos da convivência, da justiça, da cidadania e da construção de uma sociedade mais digna.
Afinal, de que adianta conquistar o mundo exterior se, para sustentá-lo, precisarmos nos afastar de nós mesmos?
Que possamos crescer sem perder a simplicidade, conquistar sem perder a humanidade e ocupar espaços sem permitir que os espaços ocupem o lugar da nossa essência.
Porque a maior liberdade não está em poder aparentar tudo aquilo que desejamos ser, mas em não precisar esconder aquilo que verdadeiramente somos.
Ângela Santos de Oliveira
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