Plantar tâmaras/escolher o voto: que frutos queremos deixar para as próximas gerações?


A tâmara representa muito mais do que um fruto. Representa a capacidade humana de plantar hoje, cuidar do que foi semeado e acreditar que as próximas gerações poderão colher aquilo que talvez não tenhamos tempo de desfrutar. É compreender que nem tudo precisa produzir resultados imediatos para ter valor. Algumas obras exigem anos de dedicação, paciência e compromisso.

Edificar sobre a rocha é assim: leva tempo, exige fundamentos sólidos e não dispensa a ética. Na vida pública, também precisamos plantar valores que resistam às conveniências, aos interesses particulares e às tentações do poder.

O voto é uma semente. A pergunta é: que futuro estamos ajudando a cultivar?

Amar ao próximo não pode ser um sentimento restrito à família, aos amigos, aos semelhantes ou àqueles que pensam como nós. Amar o próximo como a qualquer pessoa é reconhecer a dignidade humana sem escolher quem merece respeito conforme a classe social, a condição econômica, a origem ou a posição política. Na vida pública, esse princípio se aproxima da imparcialidade: governar sem transformar preferências pessoais em critérios para distribuir direitos e oportunidades.

Por isso, precisamos analisar a natureza das atitudes de quem deseja nos representar. Como essa pessoa trata quem não pode lhe oferecer vantagens? Como se posiciona diante dos mais vulneráveis? Respeita quem pensa diferente? Compreende que o dinheiro público pertence à coletividade e deve atender ao interesse público?

Quem deseja governar precisa aprender a servir.

O dinheiro do povo não é patrimônio particular, e o governo não é uma empresa pessoal. Quem deseja empreender pode construir seu negócio, assumir os riscos da atividade econômica e buscar lucros dentro da lei. Já quem ocupa uma função pública assume outra responsabilidade: administrar recursos coletivos com honestidade, transparência, impessoalidade e compromisso com o bem-estar social.

Governar não significa tratar o Estado como propriedade de quem foi eleito. Significa compreender que o mandato é temporário, mas as consequências das decisões podem alcançar gerações inteiras.

Também precisamos refletir sobre o discurso que transforma pessoas pobres em culpadas pela própria pobreza e trabalhadores que recebem benefícios sociais em alvos de desprezo. Nenhuma política pública deve estar acima da avaliação responsável, mas combater desigualdades exige compreender a realidade, promover oportunidades e respeitar a dignidade de quem precisa de proteção social.

O trabalho é fundamental para a autonomia humana. Entretanto, não podemos confundir valorização do trabalho com aceitação de qualquer condição de exploração. Uma sociedade justa precisa oferecer oportunidades reais, remuneração digna e condições para que trabalhar seja também uma possibilidade de viver com segurança e respeito.

Não existe grandeza em acumular privilégios enquanto se despreza a dignidade dos outros.

Uma sociedade democrática precisa de pessoas capazes de pensar, questionar, pesquisar e reconhecer a complexidade dos problemas. O ódio, a violência e a desumanização empobrecem o debate público quando substituem argumentos fundamentados por acusações, preconceitos e estratégias de divisão.

Os seres humanos possuem impulsos de sobrevivência, medo, competição e defesa. Mas nossa grandeza também está na capacidade de refletir sobre esses impulsos, desenvolver empatia, controlar reações e construir soluções coletivas. Não podemos permitir que a política se limite a estimular nossos instintos mais destrutivos quando temos condições de cultivar a solidariedade, a justiça e a cooperação.

Precisamos de representantes que compreendam que a sociedade não é formada por grupos que devem ser colocados uns contra os outros, mas por pessoas com necessidades, direitos e responsabilidades que precisam ser considerados na construção do bem comum.

Isso não significa que todos devam pensar da mesma maneira. Significa que nossas diferenças não podem servir de justificativa para retirar de ninguém a condição de sujeito de direitos.

Na hora de votar, não basta observar promessas, discursos emocionantes, aparência de sucesso ou capacidade de atacar adversários. É necessário examinar a trajetória, as propostas, as decisões anteriores, a relação com o dinheiro público, o respeito às instituições e a coerência entre o que se fala e o que se pratica.

Afinal, a maneira como alguém trata as pessoas e compreende o poder público também revela muito sobre o tipo de sociedade que suas decisões podem ajudar a construir.

O maior desafio de um governante não é demonstrar quanto dinheiro consegue acumular, quantos privilégios pode preservar ou quantas pessoas consegue convencer pelo medo. É compreender a dimensão humana da responsabilidade que recebeu.

O dinheiro é um instrumento. O poder é uma responsabilidade. O mandato é uma oportunidade de servir. E o povo não existe para servir aos interesses particulares de seus governantes.

Plantar tâmaras é acreditar no futuro. Votar com consciência é assumir responsabilidade por ele.

Que não sejamos uma geração preocupada apenas com os frutos que pode colher, mas uma geração comprometida com as sementes que deixará.

Porque o voto passa, o mandato termina, os discursos são esquecidos, mas as consequências das escolhas políticas permanecem na vida das pessoas.

Antes de escolher um representante, pergunte a si mesmo: ele está disposto a cuidar do povo ou espera que o povo continue cuidando dos privilégios dele?

A verdadeira grandeza de quem governa não está em amar o dinheiro acima das pessoas, mas em compreender que administrar o que pertence a todos exige responsabilidade com a vida de cada um.

Ângela Santos de Oliveira

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