É preciso se posicionar. Não dá para permanecer omisso quando podemos trazer a nossa visão sobre os fatos. Mas posicionar-se também exige pensar, questionar e compreender que problemas complexos não encontram soluções mágicas, imediatas ou simplistas.
Precisamos observar quem apresenta propostas sustentadas pelo radicalismo e pela promessa de resolver rapidamente aquilo que, na realidade, exige diálogo, planejamento, responsabilidade e construção coletiva. O discurso rápido e sorrateiro de “resolutividade” pode parecer convincente, mas nem sempre considera todas as dimensões de uma questão.
Finanças, sucesso e felicidade não dependem apenas de governabilidade. Segurança pública, por sua vez, não se constrói simplesmente ceifando vidas humanas para proteger outras vidas humanas. É preciso pensar em prevenção, proteção, justiça, responsabilidade e políticas públicas capazes de enfrentar as causas e as consequências da violência.
Um mesmo fato pode despertar opiniões profundas e outras superficiais. A diferença está também na disposição de cada pessoa para dissecar esse fato, analisá-lo em seus diversos aspectos e dimensões e compreender que a realidade quase nunca cabe em uma única frase.
Qualquer governante ou líder precisa compreender que exercer uma função pública significa servir. A Administração Pública deve estar orientada pelos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência, com responsabilidade e honestidade na utilização de recursos que pertencem à coletividade.
Eficiência não significa simplesmente gastar mais ou ter dinheiro de sobra. Significa transformar recursos em resultados que atendam às necessidades reais das pessoas, especialmente aquelas relacionadas às condições mínimas e dignas de existência.
Não se trata de defender uma vida pautada pela megalomania, pelo consumismo ou pela ideia de que “tudo posso”, esquecendo que nem tudo convém. Também não se trata de odiar a legalidade ou desejar formas frouxas de não cumprir as leis. Uma sociedade precisa de ordem, responsabilidade, justiça e respeito às normas construídas para proteger direitos e possibilitar a convivência coletiva.
Precisamos ter cuidado com quem busca vantagens pessoais utilizando seus adeptos como instrumentos para sustentar projetos particulares de poder, privilégios e regalias. O voto não deveria ser tratado como moeda de troca para manter interesses restritos.
Quem deseja liderar e representar precisa compreender a relevância do cargo. Não pela arrogância, pela truculência ou pelo discurso que menospreza a capacidade das pessoas de pensar, mas pela disposição de construir ações concretas, responsáveis e humanizadas dentro das possibilidades existentes.
É preciso amar pessoas, e não transformar o poder público em instrumento para amar coisas, luxos, privilégios, acordos ou conchavos destinados a pequenos grupos interessados em usufruir do erário.
O dinheiro público não tem dono particular. O erário pertence à coletividade e deve servir à coletividade.
Isso vale para todos: para quem tem muito e para quem tem pouco. Cada pessoa possui responsabilidades, possibilidades e autonomia que precisam ser respeitadas. Mas ter recursos próprios não deveria produzir a soberba de acreditar que aquilo que não utilizamos pessoalmente não precisa existir ou pode ser negligenciado.
Eu posso colocar meu filho em uma escola particular e, ainda assim, defender uma escola pública de qualidade.
Posso ter um plano de saúde e, ainda assim, defender um serviço público de saúde digno e eficiente.
Posso morar em um condomínio fechado e ter condições de escolher onde ir, mas ainda assim defender uma segurança pública que proteja toda a população.
Isso é pensar para além do próprio conforto.
HUMANIDADE é trazer a população para dentro de nós. Por isso falamos em humanidade inteira, e não apenas em “eu” e “meu”.
Sem essa compreensão, não construímos verdadeiramente o nós: aquele que precisa ser mais empático, fraterno, justo e solidário.
“Pense no próximo como em si mesmo”, mesmo quando você acredita estar alguns degraus acima. E lembre-se de que quem está em um degrau abaixo não pode permitir que sua existência seja reduzida a um simples número necessário para entregar um voto.
O cidadão não pode ser lembrado apenas no dia da urna e esquecido durante os anos seguintes.
Mais importante do que escolher alguém por um discurso bonito ou por uma promessa imediata é observar quem está disposto a realizar um trabalho verdadeiramente edificante, responsável e comprometido com o coletivo — inclusive quando determinada ação não produzirá benefício imediato para a própria vida.
Porque democracia não deveria ser sobre “o que eu ganho?”
Deveria também ser sobre:
“Que sociedade estamos ajudando a construir para todos nós?”
E talvez esse seja um dos maiores exercícios de cidadania: compreender que uma política pública pode não ser necessária para mim hoje e, ainda assim, ser indispensável para alguém — e que defender sua existência também é uma forma de humanidade.
Ângela Santos de Oliveira
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