Quando a verdade pede humildade


Por que é necessária tanta humildade para crescer e enxergar verdades que, muitas vezes, estão diante dos nossos olhos?

Se sem a verdade não conseguimos viver plenamente, por que resistimos tanto a ela?

Por que perder tanto da própria existência tentando sustentar ilusões, quando poderíamos simplesmente nos render à beleza de viver com verdade, amar o próximo como a nós mesmos e reconhecer que a vida não foi colocada em nossas mãos para ser dominada, mas cuidada?

Há momentos em que a insensibilidade humana se torna gritante.

Criam-se cascas tão grossas que já não permitem sentir o sofrimento do outro. Constroem-se pensamentos distantes da realidade e, depois, levantam-se enormes edifícios de justificativas para defender aquilo que, quando observado sem interesses, revela-se desumano.

Talvez uma das maiores dificuldades humanas seja esta: olhar para os próprios atos sem os filtros que o orgulho construiu para protegê-los.

É preciso coragem para retirar essas camadas.

Coragem para reconhecer que nem sempre estamos certos.

Coragem para perceber que poder não é sinônimo de grandeza, riqueza não é sinônimo de felicidade e aparência de sucesso não é prova de uma existência bem vivida.

Que adoecimento pode produzir a megalomania do poder quando alguém começa a acreditar que possuir mais significa ser mais?

O ser humano pode acumular coisas e continuar vazio.

Pode conquistar lugares e perder a própria humanidade.

Pode ser cercado de pessoas e permanecer profundamente sozinho.

Pode construir uma imagem grandiosa de si mesmo e, ainda assim, não conseguir olhar para o sofrimento que acontece ao seu redor.

Por isso penso que a verdadeira liderança precisa nascer de outro lugar.

Liderar deveria ser, antes de tudo, servir.

O verdadeiro líder não precisa transformar a própria imagem no centro de tudo. Sua grandeza aparece justamente quando sua presença deixa frutos que permanecem mesmo quando ele sai de cena.

Menos evidência pessoal.

Mais cuidado com as pessoas.

Menos culto ao poder.

Mais responsabilidade.

Menos vaidade.

Mais serviço.

Menos exploração.

Mais sustentabilidade.

Porque não existe verdadeira grandeza humana quando o progresso de alguns depende da destruição das condições de vida de muitos.

O planeta também precisa entrar na nossa consciência.

Os seres humanos não vivem isolados da natureza. Dependemos da água, do solo, das plantas, dos animais, dos minerais e de tantos sistemas que sustentam silenciosamente a nossa existência.

Que beleza maior poderia existir do que construir formas de inclusão social capazes de reconhecer a dignidade de cada ser humano e, ao mesmo tempo, respeitar a generosidade dos reinos que compõem a vida e os recursos que tornam possível a nossa própria existência?

Talvez precisemos reaprender a palavra suficiência.

Nem tudo o que podemos possuir precisamos possuir.

Nem tudo o que podemos explorar precisamos explorar.

Nem todo poder que conseguimos exercer precisamos exercer.

A pergunta mais importante talvez não seja:

“Quanto posso conquistar?”

Mas:

“O que a minha forma de viver está fazendo com as pessoas e com o mundo que também pertencem às próximas gerações?”

E há outra inquietação que não consigo abandonar:

Como impedir que as decisões de poucos coloquem em risco a vida de muitos?

Não acredito que a humanidade possa permanecer eternamente refém da omissão, da manipulação, da vaidade ou das decisões tomadas sem responsabilidade pelas consequências.

É preciso despertar.

Mas despertar não significa procurar um salvador humano para pensar por nós.

Significa recuperar a capacidade de pensar, sentir, participar, questionar, dialogar e agir.

A transformação começa quando deixamos de entregar completamente a outros aquilo que também é nossa responsabilidade.

Não podemos controlar todas as decisões do mundo, mas podemos escolher não permanecer indiferentes.

Podemos educar.

Podemos participar.

Podemos cobrar.

Podemos proteger.

Podemos cuidar.

Podemos dizer não àquilo que desumaniza.

Podemos dizer sim àquilo que preserva a dignidade.

E talvez a cura de uma sociedade comece justamente quando pessoas que já compreenderam alguma verdade deixam de usá-la para se colocar acima das demais e passam a utilizá-la para ajudar outras pessoas a despertar.

Quem encontrou um pouco de luz não precisa humilhar quem ainda está atravessando a escuridão.

Pode estender a mão.

Pode ensinar.

Pode esperar.

Pode amar.

Talvez seja isso que significa levantar o véu das ilusões: não destruir o outro por aquilo que ele ainda não consegue enxergar, mas criar condições para que ele também possa enxergar.

Há camadas que endurecem a alma: orgulho, medo, ressentimento, ganância, vaidade, necessidade de aprovação, desejo de poder.

Mas nenhuma camada precisa ser definitiva.

O ser humano pode mudar.

Pode reconhecer.

Pode reparar.

Pode recomeçar.

Pode voltar a sentir.

E, para quem crê em Deus, existe ainda uma esperança maior: a de que não estamos abandonados à própria cegueira.

Senhor, que possamos receber humildade para reconhecer o que precisamos mudar, sabedoria para distinguir verdade de ilusão, coragem para não nos submetermos ao que desumaniza e amor suficiente para não reproduzirmos em outros aquilo que um dia nos feriu.

Que não sejamos conduzidos pelo medo.

Que não sejamos seduzidos pela aparência do poder.

Que não confundamos riqueza com valor humano.

Que não chamemos de sucesso aquilo que destrói pessoas e natureza.

Que nossas decisões sejam cada vez mais conscientes, responsáveis e coerentes com a vida.

E que possamos compreender que a verdadeira ascensão não é subir acima dos outros.

É conseguir elevar a própria consciência sem deixar ninguém para trás.

Talvez a maior vitória humana seja justamente esta:

ser livre sem dominar, ter sem possuir o outro, liderar sem se colocar acima, crescer sem diminuir ninguém e viver de tal maneira que a nossa existência deixe no mundo mais humanidade do que encontrou.

Ângela Santos de Oliveira

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