Ontem fui com meus filhos e sobrinhos à praça do bairro Aruana.
Fui para brincar.
Mas também fui para observar.
E algumas coisas que vemos quando estamos atentos não conseguem mais ser ignoradas.
A quadra esportiva fica próxima a duas avenidas movimentadas e não possui proteção suficiente para impedir que a bola saia em direção à via.
Vi crianças brincando.
Vi crianças correndo.
Vi crianças indo buscar a bola.
E pensei:
E se, justamente naquele segundo, vier um ônibus? Um carro? Uma motocicleta?
Uma criança pode correr atrás de uma bola sem conseguir avaliar o perigo.
Um motociclista pode ser surpreendido e tentar desviar.
Um motorista pode frear bruscamente.
Uma pequena situação pode desencadear uma grande tragédia.
E eu não quero esperar que aconteça.
Ainda criança, em Cedro, minha terra natal no interior de Sergipe, recebi uma notícia que nunca esqueci: uma criança havia sido atropelada por um ônibus.
A notícia doeu.
Hoje, adulta, compreendo ainda mais que algumas dores não deveriam ser experimentadas quando poderiam ser evitadas pela prevenção.
Mas quero deixar uma reflexão importante:
a solução não é impedir que nossas crianças brinquem.
A solução é criar espaços onde elas possam brincar com segurança.
A praça pública tem função social.
É lugar de esporte.
É lugar de lazer.
É lugar de encontro.
É lugar de convivência.
É lugar onde uma criança que mora em uma casa pequena também pode correr.
Porque criança precisa correr.
Precisa brincar.
Precisa encontrar outras crianças.
Precisa gastar energia.
Precisa aprender a dividir.
Precisa negociar regras.
Precisa rir.
Precisa viver a infância.
E nem toda criança mora em condomínio.
Nem toda família pode pagar clube.
Nem toda casa possui quintal.
O direito ao lazer não pode depender da condição econômica da família.
A Constituição reconhece o lazer como direito social.
Por isso, precisamos olhar para nossas praças como verdadeiros equipamentos de cidadania.
E também precisamos olhar para as famílias.
Pais e mães trabalham.
Chegam cansados.
Muitas vezes carregam o peso de jornadas longas e responsabilidades enormes.
Quando existe uma praça segura, as crianças podem brincar, correr e conviver, enquanto os adultos encontram alguns minutos de descanso, conversa e convivência comunitária.
Isso não substitui a responsabilidade dos pais.
Mas uma boa cidade também cria condições para que as famílias tenham qualidade de vida.
Uma praça segura pode ser uma pequena rede de apoio para uma grande comunidade.
As ruas de hoje também não são as mesmas de décadas atrás.
Antigamente, em muitos lugares, havia poucos veículos.
Hoje temos carros, ônibus, motocicletas e uma circulação muito maior.
Então precisamos adaptar nossas cidades às necessidades atuais.
Não podemos simplesmente dizer:
“Antigamente as crianças brincavam na rua.”
Sim.
Mas o mundo mudou.
E se as ruas ficaram mais perigosas, precisamos fortalecer os espaços públicos destinados ao lazer.
Não quero uma praça vazia por medo.
Quero uma praça cheia de crianças brincando com segurança.
Não quero impedir a bola de rolar.
Quero impedir que uma bola possa levar uma criança para uma avenida.
Não quero apontar culpados.
Quero provocar consciência.
Que o Poder Público enxergue o risco antes da tragédia.
Que os moradores participem.
Que os técnicos avaliem.
Que os gestores previnam.
Que a cidade cuide.
Porque a melhor gestão não é aquela que chega depois da dor.
É aquela que chega antes dela.
Que possamos ter praças vivas, crianças felizes, famílias acolhidas e espaços públicos seguros.
Porque prevenir é cuidar.
Cuidar é proteger.
E proteger a vida é uma das mais bonitas formas de amar o próximo.
Em defesa da vida — de uma, de algumas ou de muitas.
Ângela Santos de Oliveira
Aracaju, 6 de setembro de 2026.
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