O que estamos vivendo são momentos que nos convidam a aprofundar valores, escolhas e ações


Evoluir é dar passos que nos levem para além da cortina de fumaça. É ter coragem de enxergar verdades que não podem ser escondidas apenas porque incomodam.

É preciso compreender o que torna um poder autoritário forte: o medo da derrota, o silêncio e a desistência de quem deixa de ocupar os espaços em que poderia defender seus direitos. E também compreender o que torna um povo forte: a coragem de se manifestar, de participar, de ocupar os espaços de cidadania e de continuar lutando pela dignidade, mesmo sabendo que não existe vitória garantida.

O medo não constrói um lugar verdadeiramente acolhedor. Muitas vezes, ele transforma o esconderijo ao lado de quem oprime em uma falsa sensação de proteção.

De que adianta sentir-se protegido por estar próximo de quem está no poder, dizer “eu votei em você” e acreditar que isso garantirá algum lugar de privilégio, se amanhã as costas podem ser viradas para todos aqueles que esse mesmo poder considera inferiores?

O que prejudica uma sociedade não é somente a ação de quem oprime. Também pesa o medo de quem poderia se manifestar e escolhe não fazê-lo, mesmo quando ainda existem espaços legítimos para lutar.

E há quem se orgulhe de dizer que é “de direita” porque acredita que “esquerda é coisa de pobre”. Mas vale perguntar com honestidade: quem, individualmente, teria dinheiro suficiente para substituir toda a dimensão dos serviços públicos?

Se todas as pessoas que você ama precisassem, ao mesmo tempo, de uma cirurgia de urgência, de uma cirurgia eletiva, de tratamento para uma doença séria ou crônica, você conseguiria pagar tudo isso sem depender de uma estrutura pública?

E seus filhos? E seus netos? Conseguiriam manter planos de saúde caros durante toda a vida? Teriam condições de pagar universidades particulares se não encontrassem vagas nas universidades públicas?

E se precisassem de segurança privada para cada condomínio, rua e espaço onde sua família vivesse? Você conseguiria sustentar individualmente tudo aquilo que uma sociedade organizada precisa construir coletivamente?

E se não houver concursos públicos em quantidade suficiente? Se oportunidades, contratos, concessões e permissões ficarem cada vez mais concentrados? Quem terá acesso às oportunidades e quem ficará dependente delas?

Não somos autossuficientes diante da dimensão de uma sociedade. Por mais dinheiro que alguém tenha, ninguém constrói sozinho hospitais, universidades, estradas, segurança, saneamento, fiscalização, ciência, assistência social e tantas outras estruturas que sustentam a vida coletiva.

Por isso, talvez seja hora de acordarmos para uma verdade simples: o que defendemos hoje não diz respeito apenas ao nosso conforto. Diz respeito ao mundo que estamos deixando para nossos filhos, nossos netos e para aqueles que ainda virão.

Cidadania não é torcer para que o poder nunca se volte contra nós. É ajudar a construir instituições e uma sociedade em que direitos não dependam de proximidade com o poderoso, de dinheiro, de medo ou de conveniência.

Precisamos olhar para o presente com coragem e para o futuro com responsabilidade.

Porque o legado que deixaremos não será apenas aquilo que conseguimos conquistar para nós mesmos, mas também aquilo que tivemos coragem de defender para todos.

Ângela Santos de Oliveira 


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