Que a insensibilidade é desamor, todo mundo sabe.
Que a sensibilidade não é fraqueza nem trauma: quando ela foi ferida, é preciso cuidar, compreender e curar.
Riqueza que endurece o coração e nos faz desamar o próximo não é verdadeira riqueza. É avareza, é miséria espiritual.
E o medo de perder aquilo que temos quando podemos ajudar revela também uma dificuldade de compreender Deus como supridor e a nós mesmos como conquistadores capazes, responsáveis e instrumentos de transformação.
Quem se esquece de Deus pode acabar se esquecendo também do próximo.
Porque, se continuarmos acreditando que conquistamos tudo sozinhos, esquecemos as muitas mãos que estiveram pelo caminho. Esquecemos as oportunidades que recebemos, as pessoas que nos ensinaram, acolheram, abriram portas, estenderam a mão e, acima de tudo, esquecemos que a própria vida não foi uma obra individual.
“A quem muito é dado, muito será cobrado.”
Talvez chegar mais longe não seja apenas uma recompensa. Talvez seja também uma responsabilidade.
Talvez Deus nos coloque em determinados lugares não para que nos agarremos a eles, mas para que, estando ali, possamos servir mais, alcançar mais pessoas e fazer melhor aquilo que precisa ser feito.
Porque, nessa hora, quando alguém se agarra somente ao que conquistou, pode esquecer a verdadeira missão: para com Deus, para com o próximo e também para consigo mesmo.
Não há grandeza verdadeira quando nossas competências e habilidades servem apenas para construir um pequeno cercadinho em torno de nós mesmos.
A grandeza está em administrar aquilo que somos e aquilo que temos para servir além de nós.
Porque uma obra verdadeiramente grandiosa não termina em quem a realiza. Ela se espalha.
Ela alcança pessoas.
Ela transforma histórias.
Ela devolve dignidade.
Ela humaniza.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das dimensões mais bonitas da obra divina: fazer o bem circular através de cada um de nós, até onde nossas mãos, nossas palavras, nossas escolhas e nossas possibilidades puderem chegar — de fato e de direito.
Liberte-se.
Cuide-se.
Cure as feridas que fizeram em você e também aquelas que, por alguma razão, você permitiu que permanecessem abertas.
Não tenha vergonha de reconhecer que precisa curar.
Deus pode ter colocado você exatamente onde alguém precisava de você. Pode ter permitido que você nascesse, crescesse e atravessasse determinadas experiências para participar de processos de memória, humanidade e humanização.
Porque a história está sempre latente e pulsante.
As folhas mudam.
Os galhos se renovam.
Os tempos passam.
Mas a raiz permanece.
E talvez seja por isso que não devemos esquecer de onde viemos, quem nos ajudou a chegar até aqui e para que recebemos aquilo que temos.
Que a nossa conquista não nos afaste do amor.
Que a nossa riqueza não nos empobreça por dentro.
Que o nosso crescimento não nos faça esquecer os outros.
Que a nossa fé nos torne mais responsáveis, mais humanos e mais disponíveis para servir.
Porque viver não é apenas conquistar um lugar.
É compreender o que fazer com o lugar que conquistamos.
Por muitos.
Por nós.
Ângela Santos de Oliveira
Pedagoga e Advogada
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