Quero o melhor do eu em mim para pensar no meu próximo.

Tenho pensado muito sobre o que significa fazer o melhor de nós mesmos e, ao mesmo tempo, pensar no outro.

Acredito que uma sociedade melhor começa quando cada pessoa compreende sua própria responsabilidade, sem deixar de reconhecer que nem todos partem do mesmo lugar. Por isso, quando penso no meu próximo, não penso apenas em ajudar, mas também em construir um país onde as pessoas tenham condições dignas para caminhar com autonomia, responsabilidade e liberdade.

Não quero governante pensando em moratória para dívida de empresário que precisa, antes de tudo, assumir a responsabilidade pela gestão do próprio dinheiro e do próprio negócio. Quero governantes pensando em criar condições para que as pessoas possam trabalhar, empreender, estudar e deixar seus maiores legados: educação de verdade para seus filhos e oportunidades dignas para todos.

Também não quero um Estado dificultando quem trabalha e produz. Mas precisamos compreender que liberdade econômica não pode ser confundida com irresponsabilidade financeira. A soberba de sustentar estilos de vida desenfreados também tem consequências. Nem todo desejo precisa ser imediatamente transformado em consumo. Às vezes, é preciso dizer: “não posso”, “não é prudente agora” ou “isso precisa esperar”.

Querer tudo na velocidade da luz pode custar caro. Soberba e irresponsabilidade com o dinheiro podem criar crises nas finanças de qualquer pessoa, de qualquer família e também de qualquer negócio.

E isso não significa desejar que o rico fique mais pobre. Significa compreender que uma sociedade saudável precisa impedir que o pobre fique cada vez mais pobre e que a dignidade humana não seja privilégio de quem nasceu com melhores oportunidades.

A crise política também é, muitas vezes, retrato de uma crise de valores.

Precisamos olhar para a história e reconhecer quantas pessoas enriqueceram e sustentaram suas mordomias utilizando o trabalho de homens e mulheres braçais, pouco escolarizados e socialmente invisibilizados — pessoas que, tantas vezes, foram tratadas apenas como pés e mãos de estruturas que não lhes ofereciam as mesmas oportunidades.

Então, por que os filhos e os netos dessas pessoas não podem desejar que seus descendentes tenham acesso às mesmas condições dignas?

Políticas públicas que buscam diminuir desigualdades históricas não deveriam ser vistas como ameaça por quem já teve mais oportunidades. Justiça social não é retirar dignidade de uns para entregar a outros; é ampliar a dignidade possível para todos.

A maior humildade talvez seja votar pensando em um país com menos disparidades.

Quem possui meios próprios deve reconhecer o privilégio que isso representa e assumir também a responsabilidade pelo bom uso do próprio dinheiro. Quem vive com salário mínimo há muito tempo sabe que administrar pouco exige criatividade, disciplina e, muitas vezes, fazer verdadeiros milagres para pagar as contas.

Quem consegue deixar de trocar de carro todos os anos já começa a compreender que economia exige escolhas. E, se tudo está caro para você, imagine para quem ganha muito menos — ou para quem sequer possui um salário fixo.

Se o seu negócio precisa de gestão, comece pela gestão. Talvez seja mais prudente organizar as finanças do que comprar artigos de luxo para sustentar uma aparência de sucesso.

Precisamos construir também um mercado consumidor mais consciente. Quem viveu anos sob aperto financeiro sabe que, quando a casa cai, não adianta procurar culpados em todos os lugares. É preciso reorganizar a vida, rever escolhas e recuperar a ordem das próprias finanças.

Não podemos contar eternamente com os ovos da cesta dos outros.

A vida exige responsabilidade de todos: de quem ganha muito e de quem ganha pouco, de quem empreende e de quem trabalha, de quem governa e de quem é governado.

Precisamos abandonar a transferência permanente de responsabilidades, as manobras arriscadas e as tentações que nos fazem perder valores tão nobres.

Responsabilidade não é ausência de solidariedade. Justiça social não é incentivo à irresponsabilidade. Liberdade não é licença para explorar. E prosperidade não deveria significar deixar alguém para trás.

Talvez seja esse o caminho para construirmos uma sociedade mais madura: cada um fazendo a sua parte, o Estado cumprindo a sua função e todos compreendendo que o melhor do eu só encontra verdadeiro sentido quando também consegue pensar no próximo.

Ângela Santos de Oliveira
Pedagoga e Advogada

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